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"Não é só porque eu gosto de escrever sobre a minha vida, que eu vá deixá-la escorrer pelas minhas mãos." - Amanda Zago
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“Portanto, no final das contas, ela disse simplesmente: — Nada. Não há nada de errado.”
Irmão Lobo, de Michelle Paver. Página 168, via: (sombraemilk)

“A ponte da cidade que cruzava o largo rio. A altura era respeitável e a correnteza lá embaixo era bravia. Do outro lado da ponte havia uma senhorinha, com sua tralha de pesca — varas, caixas de anzóis e iscas, puçá — e uma viseira na cabeça a despeito da falta de sol. Viu a mulher cambaleando, sozinha, subindo no parapeito da ponte. Desesperou-se e soltou suas coisas. Começou a correr e a gritar!
— Ai, meu Deus! Moça, não faz isso pelo amor de Deus!
Laura, tonta, olhou para a mulher e debruçou-se ainda mais sobre o vão da ponte. O som da água correndo sempre lhe foi convidativo, mas nunca foi tão sedutor quanto naquele instante. Laura fechou os olhos, o mundo girava mais rápido do que ela podia suportar. Então perdeu as forças e caiu.
— Meu Deus! — gritou a senhora, paralisada por um instante.
A pescadora, desesperada, correu até o meio da ponte. Sabia que a mulher embriagada morreria se não conseguisse ajuda.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 258, via: (sombraemilk)

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“Sabemos que desde o primeiro momento que chegamos a esse mundo, damos passos certeiros rumo ao nosso último dia — nossas células berram isso minuto após minuto, hora após hora, e assim entendemos que iremos fatalmente perecer, mas nos assombramos quando a morte nos lambe ternamente e leva quem está ao nosso lado, como se fosse um tipo de lembrete sem graça de que hoje não foi, mas amanhã poderá ser. Por que tanta preocupação entre os períodos de acordar e dormir? Para que desesperar-nos se entrarmos no cheque especial? Para que tanto drama se perdemos uma coisa importante, feita de papel ou couro, ou uma joia que era para pendurar no pescoço quando lembramos que podemos perder a existência?”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 255, via: (sombraemilk)

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“Afinal, a paixão transformava as pessoas.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 237, via: (sombraemilk)

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“— É só olhar pra você, Alan. Seu corpo inteiro está gritando por ajuda, menos a sua boca.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 226, via: (sombraemilk)

“Assim que Marcel terminou de picar os pimentões, Laura apanhou os pedacinhos e despejou-os na panela, mexem o molho. Ao cozinhar, ela ficava concentrada, imaginando as combinações olfativas e palatáveis para o seu tradicional molho de cachorro-quente. Estava tão absorta que não percebeu Marcel parado, havia minutos, observando o sei vaivém. Só quando se virou uma segunda vez notou o olhar fixo do namorado. Ela sorriu e enrubesceu como uma adolescente. Conhecia aquele olhar.
— O que foi? — perguntou.
— Sabia que você é a coisinha mais linda que eu já vi na face da Terra?
— Hum. Não sabia, não.
— Então acredite, porque você é.
— Verdade?
— Verdade, adorada.
— Então tomara que o mocinho nunca vire astronauta.
Marcel riu.
— Por quê?
— Porque se você entrar numa nave e conhecer outros mundos, eu posso não ser a mais linda. Só me garanto aqui, na Terra.
— Duvido que exista coisa mais fofa que você no universo, adorada.
— Sou adorada?
— É. Você é minha única adorada. Minha paixão. Minha coisinha.
Laura lançou um sorriso espontâneo e imediato para o namorado e aproximou-se dele, beijando seu queixo e depois seu rosto, sentindo suas bochechas pegando fogo. A mulher tinha o coração disparado e a mente embriagada de felicidade. Se afastou um pouco para poder encará-lo nos olhos.
— Você acredita em anjo da guarda, Marcel?
— Hã?
— Anjo da guarda, um protetor enviado do céu? Você acredita?
— Eu acredito, e muito.
— Sabe o que eu acho? Acho que você é um anjo da guarda que apareceu na minha vida. Eu estou completamente caidinha por você, como por encanto. Tou boba e apaixonada, sinto frio na barriga quando você me olha desse jeito e me fala essas coisas. Só de ouvir sua voz eu estremeço inteira.
— De que jeito eu olho?
— Esse jeito que você estava me olhando. Com cara de homem, de desejo. E posso ser sincera?
Marcel balançou a cabeça.
— Eu achava que nunca mais sentiria essa paixão por um homem na vida. Juro por Deus.
Marcel abraçou a mulher e tocou a testa dela com a sua.
— Posso ser sincero também?
— Claro, meu anjo.
— Eu não estava olhando pra você. Estava tentando ver o molho, estou com fome.
— Nhá! Mentira!
Os dois riram freneticamente. Os risos amainaram quando Marcel selou a boca de Laura com um beijo a princípio terno, depois ardente.
Laura, no meio de um suspiro, sentindo as mãos do namorado percorrendo seu corpo, deixou escapar:
— Naquela noite, se você não chegasse, eu não estaria aqui. Você me salvou naquela noite, Marcel. Você não pode ser de verdade.
— E você me salvou hoje, Laura. E acredite, eu sou de verdade.
— Quem te salvou hoje foi um bêbado. — Riu.
— Pensando bem, lindinha, acho que sua teoria está completamente furada.
— Como assim?
— Se eu fosse um anjo, um anjo mesmo, com asa e tudo, eu não estaria tendo esses pensamentos que estou tendo agora.
— Quais pensamentos?
Marcel agarrou Laura pela cintura com firmeza. Apertou a mulher entre seus braços e pôde sentir que ela estremecia.
— Pensamentos de diabinho ouriçado, não de anjinho com cabelo encaracolado.
Laura riu e suspirou ao mesmo tempo, colocando-se na ponta dos pés para beijar os lábios do namorado. O beijo foi intenso e o abraço, apertado. Ele apoiou Laura sentada na mesa e a abraçou ainda com mais força, transbordando de desejo, beijando-lhe o pescoço, a orelha e a nuca. Laura, extasiada, com a pele arrepiada, entregou-se às carícias do namorado, retribuindo seus beijos e seu calor. Os lábios de Marcel não cansavam de buscar sua língua. A mulher chegou a perder o fôlego três, quatro vezes, totalmente presa às investidas do namorado. Marcel deslizou sua mão por baixo da camiseta de Laura, fazendo-a vergar para trás e soltar um gemido. Laura enlouqueceu quando os dedos do homem puxaram o laço que prendia sua bermuda. Ela já não respirava, só estava ali, entregue aos braços dele, que a agarrou e deitou-a gentilmente no chão da cozinha.
— Adorada — ele murmurou.
Ela desceu as mãos pelas costas dele e depois subiu, arrancando a camisa do namorado. Os dois se agarraram como se fossem uma coisa só. Só pararam quando o cheiro insuportável de pimentão queimado tomou conta de toda a cozinha.
— Acho que hoje vamos ter que jantar fora, bonitão. — brincou Laura.”
O Caso Laura, de André Vianco. Páginas 211, 212 e 213 via: (sombraemilk)

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“— E se eu estava dentro daquele cômodo, como é que me acharam?
— Um bêbado ligou pro resgate. Acredita nisso? Salvo por um pau-d’água.
— Por que desmaiei? Esse médico aí, Dr. Breno, já fez algum exame?
— Sim, mas não sabe de nada ainda. Os médicos estão tentando montar um quebra-cabeça com as informações que tiraram de você. Fizeram ressonância, exame de sangue, neurológico. Bem, já sabem que você não foi golpeado, não estava bêbado e nem foi drogado, e também sabem que não abusaram de você. Não me pergunte como descobriram isso.
— Engraçadinha.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 209, via: (sombraemilk)

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“— Vocês desaprenderam o que é amor. O que é viver em paz. Não se contentam em amar e cuidar, em serem cuidados uns pelos outros, deixando a cobiça estender seus tentáculos sobre seus pensamentos. Não dominam e são dominados pelo desejo. Os que se perdem nesse trilho triste acabam escolhendo o caminho mais sombrio possível… que só parece ser um atalho mais fácil, mas não é.
Marcel passou a mão na cicatriz em seu pulso.
— Você por acaso está falando de suicídio?
— A vida é o único tesouro, Marcel. Ninguém pode tirar a própria vida. Não existe luz no final desse túnel, entende? É cruel. É intolerável.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 201, via: (sombraemilk)

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“— Pode entrar, Rogério. A barra tá limpa, meu amigo.
Rogério aproximou-se do corpo de Vavá e o virou com o bico do sapato. O homem agonizava, sangrando em profusão e tossindo, engasgado com um tiro na garganta. Ao lado de Alan havia o cadáver de um comparsa.
— Andou ocupado por aqui, hein, moleque.
Alan soltou um gemido e deitou-se nas caixas.
— Não tá na hora de você estar jantando com seus sogros? — debochou o delegado.
— Para de fazer graça e chama logo uma ambulância.
— Esses caras já estão no bico do corvo, Alan. Tenho que chamar é o rabecão.
— Não é pra eles, Rogério. Porra, eu sou um ser humano, dá pra se ligar?
Rogério aproximou-se e lançou o facho de luz sobre o policial, cuja aparência era lastimável. Sangue escorria de sua testa ferida, sangue se acumulava ao redor dos seus pés. Sangue vindo do corpo do capanga morto ao seu lado.
— Tá ferido?
— Não. Tou brincando de me jogar no chão e fingir de morto.”
O Caso Laura, de André Vianco. Página 195, via: (sombraemilk)

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“Laura voltou a olhar para a tela que a separava do padre, dando um longo suspiro. Sua voz saiu apagada, mas calma.
— Meu pai tem câncer, padre. O médico me deu a notícia hoje. Disse que ele não irá suportar por muito tempo, alguns dias, semanas no máximo.
— Essa é um momento de luta e dor, filha. Precisa estar preparada para que a vontade de Deus seja cumprida. Todos os que nascem um dia se confrontarão com a hora da partida, deixando para trás uma casca fria, mas quem crê, esse jamais deixa a vida. Você precisa acreditar que a morte da carne de seu pai não representa um fim, será para ele uma transformação, um novo começo. Ter medo e raiva nesse momento não é um pecado, filha. É natural lamentarmos a separação daqueles que amamos. É preciso aceitar e compreender para amparar os que estão sofrendo.
— Às vezes eu penso… fico pensando se vale mesmo a pena continuar aqui, nesse plano.
O padre permaneceu calado enquanto Laura busca as palavras.
— Eu, na verdade, queria muito ir com ele, padre.
— O melhor remédio nesses momentos de agonia é a fé, minha filha, é a fé. É preciso ter fé dentro do coração. Se não tem fé, precisa buscá-la, criá-la. Tenha esperança. A esperança é o melhor adubo da fé e da vida. Creia que seu pai parte para um lugar melhor que esse nosso mundo. Cristo nos mostrou que nada termina na carne. Todos nós evoluímos. Você também irá mudar um dia, filha, tornando-se uma linda borboleta livre do casulo.
— Eu não vou suportar, padre. Eu não vou aguentar mais essa provação. Meu pai é tudo o que me restou de minha família.
— Filha, não diga o que não sabe. Deus semeou o caminho que você ainda vai trilhar. Se há sementes, há caminho.
— Não há sementes em meu caminho, padre. Minha vida é um deserto.
— Você pode estar se sentindo sufocada agora, nesse momento, perdida num deserto seco e com um horizonte sem fim à sua frente. Mas a chuva virá. A ternura virá. Creia em mim. Não desista da sua luta porque a paisagem árida não lhe agrada agora. Tudo vai melhorar. Acredite. Deus está trabalhando nesse exato momento, bem agora, diante de seus olhos. Muitos como você perdem a fé, filha, perdem a fé antes da hora.
Laura, tocada pela mensagem, mais uma vez chorava.
Do outro lado do salão, um ministro da igreja conversava com a mãe e a filha, que acabavam de se levantar diante do alto. Ele lançou um olhar para Laura, ainda ajoelhada no confessionário. Ficou parado um momento observando-a. Notou que chorava.
— Tenha fé e aguarde, filha. Nenhuma vida vem à Terra para ser vã. Tenha fé e em breve estará cercada e coroada por lindas flores semeadas por seu Pai do céu. E não serão flores de um simples jardim. Acredite. Elas chegarão carregadas de um aroma que agirá em seu coração. Um aroma que entrará em seu espírito e te libertará de toda tristeza. Quando chegar ao oásis, esquecerá do deserto num segundo.
— E o que eu faço, padre?
— Continue caminhando. Continue com um pé à frente do outro. Seu oásis pode estar a um passo de distância. Não desista nunca. Continue caminhando sem olhar para trás. Olhe para frente, querida.
Laura olhou para o corredor novamente. Viu o ministro da igreja olhando em sua direção. Ela sorriu e baixou a cabeça.
— Não sei se consigo, padre.
— Quando se sentir sozinha, pense nas flores. Pense nas sementes lançadas pelo Pai Celeste. O caminho é maior e mais íngreme para alguns, mais suave e ameno para outros, mas todos encontrarão um oásis desabrochar em sua vida. Posso sentir a fragrância de sorriso e felicidade desabrochando em seu peito. Seja forte, filha. Seja forte.
Laura respirou fundo e se levantou, fazendo o sinal da cruz.
— Obrigada, padre. Eu tentarei.
Virou-se para o altar e flexionou o corpo, disparando pelo corredor central em direção à calçada. Enxugou as lágrimas e pensou em Marcel. Queria o abraço de seu namorado naquele exato instante. Não fosse a presença dele, sabia que não teria razão para terminar viva aquele dia.
O ministro da igreja levantou o braço em direção a Laura quando ela deixou o confessionário. Queria conversar com ela, mas notou que ela estava tomada de forte emoção e desespero, pois chorava soluçando quando levantou-se dali. O ministro tinha o coração acelerado porque vira a mulher se confessando. Ele se aproximou ainda mais do confessionário e puxou a cortina do compartimento do padre. Temeu que algum engraçadinho estivesse aprontando com Laura, mas não. O confessionário estava vazio.”
O Caso Laura, de André Vianco. Páginas 178, 179 e 180 via: (sombraemilk)

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